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REVÉS

Havia um gosto de lodo na boca, como se tivesse lambido lama de um brejo cheio de rãs gosmentas.

Mas, não poderia ser. Como sentir gosto de lodo dormindo em casa na cama bem quentinha? -

- Dormindo? Tá louca? E a festa na cidade onde eu nasci?! – se pergunta.

Há horas que Nancy viajava pela estrada, só subida e descida, um “retão” atrás do outro. Só caminhões carregados de laranjas.

Agora o gosto na boca é misturado com um gosto amargo que não identifica. Tenta cuspir e só nesse momento percebe que os lábios estão inchados como se tivesse levado um soco. Os olhos quase não se abrem.

- Esses caminhões dão raiva. Na subida é impossível ultrapassar. Tem uns dez deles, um atrás do outro. Cadê o Sol?

Imagina que está sonhando e dirigindo. Lembra-se do cansaço. Trabalhou dois dias seguidos, dormiu pouco, só para ir à festa na cidade onde nasceu. Talvez fosse um retorno às origens, ao passado que tantas alegrias lhe proporcionou. Passado!

A dor na boca a incomoda.

Não quer mais ver a cara do ex-marido. Maldito o dia em que, além de sócia da empresa, se tornou esposa daquele crápula! – xinga em pensamento.

Traída e roubada.

A empresa era dela, herdada do pai. Casou depois que permitiu a sociedade. Permitiu? Agora nem sabe ao certo.

Sente o corpo úmido como se tivesse ficado horas sob uma chuva forte. Está encharcada. As pernas parecem que não se mexem.

O carro desliza no asfalto quente e ultrapassa três caminhões. Cada ultrapassagem dessas é uma tortura, Nancy fica nervosa. Pisa fundo no acelerador e quase fecha os olhos, tal é a ansiedade em passar à frente. Mais de quatro horas de viagem sem parar. Fica procurando o Sol a cada subida como se não quisesse aceitar a chegada da noite. Não gosta de escuro. Nunca dormiu no escuro.

Nancy ouve ao longe o barulho dos caminhões passando.

Está muito frio.

A boca começa a latejar, e o gosto ruim começa a lhe dar uma sensação de enjoo e desconforto.

O frio e o escuro começam a lhe dar calafrios.

Esses caminhões não acabam nunca? Desse jeito não consigo chegar a tempo!

Subida, descida, caminhão, subida, descida, e outro caminhão, a estrada parece sempre a mesma!

As pernas cansadas e encharcadas parecem cada vez mais pesadas.

- Idiota, idiota, idiota! Deveria ter percebido, ter visto os sinais, estava tudo ali, na sua frente, mas foi burra demais para perceber – se repreende em pensamento.

- Mas essa viagem vai me ajudar, eu sei. O que eu preciso é descansar, tirar os problemas da cabeça, só basta conseguir chegar lá.

Enquanto dirige e tenta manter os olhos abertos, Nancy continua a procurar o sol, numa atitude de completa incredulidade e desespero. O sol deveria estar ali! Ainda não era tão tarde assim.

-  Mas que diabos de frio congelante! Deveria ter trazido um casaco.

A empresa era dela! Somente dela! Com o sangue e o suor de seu pai que foi possível criá-la. O dinheiro é dela! Aquele energúmeno não tem o menor direito de usá-lo.

As pernas pesam, as mãos tremem, o corpo todo parece dormente, seus lábios ardem, e, na boca, um gosto pútrido e nauseante.

De repente, no meio de mais uma ultrapassagem de vários caminhões, o Sol surge com todo o seu esplendor. Extremamente brilhante chega a quase cegá-la. Não é um, são dois sóis fortes que se aproximam rapidamente como se fossem chocar com ela. Nancy se apavora e puxa o volante com violência, tentando escapar dos sóis que a ofuscam e se aproximam não mais como sóis, mas como se fossem dois cometas rapidíssimos.

O carro se desgoverna e sai da estrada. As mãos de Nancy seguram firmemente o volante apesar da trepidação violenta. Como se descesse de costas num tobogã gigante, ela vai sentindo os trancos nas costelas. O barranco é alto e desce rapidamente sobre uma vegetação cerrada formada de árvores de pequeno porte. Agora a sensação é de que está em um liquidificador velho moendo gelo. A cabeça vai de um lado ao outro dos ombros. O último solavanco a joga sobre um brejo formado pela vazante de um riacho que passa por ali. Aquele barulho de água e lama se chocando com o carro e mais a frenagem rápida no asfalto foram as suas últimas sensações. Desmaiou.

A igreja está lotada. É um dos dias mais felizes da sua vida. Pena seu pai não estar ali no seu casamento. Olha as suas amigas, os parentes, o esplendor da catedral de estilo barroco do final do século dezenove. Sonhou assim e realizou.

Apesar da felicidade do momento, ela não consegue ver o rosto do noivo. Uma neblina encobre-lhe o rosto. Está feliz por tudo, mas algo não a deixa reconhecer aquele que escolheu para marido.

-  Quem será ele? – se pergunta.

- Como pode se casar com alguém que não conhece?

Apesar de toda a beleza e esplendor do momento, não consegue reprimir a sensação de que algo está errado, algo está faltando, e essas preocupações são personificadas na forma vaga do vulto do seu futuro noivo.

- O que será que estou deixando passar?

Com afinco e teimosia, Nancy retoma seu olhar novamente para a catedral, para seus belos adornos a ouro, aos anjos que lindamente decoram a abóbada da igreja. Ela conhecia cada pedacinho daquele lugar, sempre se sentiu em paz ali, sempre sonhou em casar-se com o seu príncipe ali. E apesar de parecer a mesma, ela tinha certeza de que algo estava diferente.

Como que respondendo aos pensamentos de Nancy, a catedral começa a desmoronar, os lindos anjos que ela sempre amou começam a cair, e ao se espatifar no chão, criam poças e mais poças de lama; os convidados se desfiguram, seus rostos com as mais sinistras feições, derretidas em barro; e o noivo, é um sapo, gosmento.

As luzes passam por ela rapidamente. A cada respiração, uma dor. O que está acontecendo? Onde estou? Por mais que tentasse, essas perguntas não saiam de sua boca e o único som emitido por ela eram os gritos agonizantes de desespero e agonia.

Os médicos tentavam tranquilizá-la. Nós vamos fazer de tudo para tentar salvá-la. Eles dizem. Seu marido não estava ali.

- Como ele pôde? No momento mais sofrido de sua vida ele deveria estar ali! Para apoiá-la!

O Sol bate no seu rosto. Sente um calor como se estivesse com a face encostada numa pedra quente. Enfim, consegue abrir os olhos. O olho esquerdo não abre tanto como o outro. O inchaço diminuiu mais no olho direito. Talvez porque ele estivesse mais livre que o lado em que se apoiou naquele lugar quente parecido com uma pedra.

Nancy olha à sua volta. De onde está só consegue visualizar o mato rasteiro e poças de água barrenta. Ouve canto de pássaros. Seriam pintassilgos?

Nesse momento a realidade lhe cai sobre os ombros, trazendo-a à consciência do que ocorreu com ela. Foi um acidente. Perdeu a direção e caiu ali, capotando o carro, se enfiando dentro daquele mato que cheira a água podre. Lembra-se da luz intensa quase se chocando com ela, depois desvia o carro e cai num lugar imensamente escuro.

Seus olhos identificam a carenagem do carro. Ela ainda está dentro do veículo, só que as rodas estão viradas para cima e o teto toca o solo. O para-brisa estilhaçou e soltou-se completamente da estrutura metálica do carro. Por esse vão entrou a lama que a cobriu parcialmente. Tenta sentir as pernas. Consegue mexer os dois pés e puxa uma das pernas. A outra está presa. Mesmo assim percebe que há um pouco de mobilidade e não há dor. Um dos braços está livre e trás a mão ao rosto, limpando a lama que maquiou a face. Pela primeira vez toca o próprio corpo como se tivesse tocado a fonte divina. Está realmente viva. A realidade e os sonhos se revezaram na sua mente durante toda a madrugada e pela manhã. Dos olhos escapam duas lágrimas, mas a boca sorri como uma nascitura assustada com a vida a surgir.

O bebê, o meu bebê?! – desespera-se.

 

FIM


Elias Do Brasil

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