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EPISÓDIO 5: O JOVEM GENERAL – a segunda carta

Atualizado: 3 de dez. de 2023



Na Vila Militar, Denise, a esposa do General, continua com a ajuda às famílias carentes que ela, as outras mulheres de oficiais e graduados fazem há algum tempo. Elas passam no comércio local e nas casas das pessoas que colaboram e arrecadam as doações. Depois, separam os gêneros alimentícios e redistribuem. À noite, depois de um dia exaustivo, Denise se recolhe à sua casa. Mais tarde, numa gaveta do armário do escritório, ela pega um pacote de cartas amarradas com laço vermelho e senta-se no sofá. Ao lado, a cuia de chimarrão solta fumaça. Enfim, as primeiras lágrimas escorrem do seu rosto. Era hábito dela e do marido, tomarem chimarrão ali, à noite. Vagarosamente, ela abre o pacote de cartas. São cartas da época que namoravam, depois quando ele viajava para exercícios militares ou cursos, enfim, sempre que se ausentava por algum tempo, ele lhe escrevia cartas. Não telefonava, escrevia cartas, depois mensagens pela internet, principalmente e-mail ou WhatsApp. Abre o envelope e retira um papel amarelado pelo tempo. As lágrimas continuam a escorrer pelo belo rosto. “Minha querida Denise: Tu não imaginas a saudade que invade o meu peito a cada dia que passo aqui na Escola Preparatória de Cadetes do Exército. Cheguei há poucos dias e me sinto como se estivesse a um século sem te ver. Levanto-me pensando em ti e durmo pensando mais em ti. O meu coração quer fugir daqui e ir ao seu encontro, meu amor. Mas, o juízo me ordena para ficar e aguentar o sofrimento. Também, me sentiria fraco se fugisse. Não herdei fraqueza dos meus ancestrais, principalmente do meu pai e da minha mãe. As lembranças de ti povoam a minha mente, principalmente antes de dormir, quando me assossego. Ah, quando te conheci! Foi num baile do Centro de Tradição Gaúcha (CTG). Eu já morava na Vila Militar e a sua família tinha acabado de se mudar para lá. Tinhas, se não me engano, 12 anos. Mas, já era moça feita. Pela altura, puxaste a sua mãe e o seu pai, ambos altos. Meus olhos se encantaram com a sua beleza morena, com os cabelos longos que pareciam querer escapar da sua cabeça a cada movimento da dança. Seu sorriso, esse que não me sai da memória, me atraiu tanto que me hipnotizou. Ficava te observando, parado como um poste. Me apaixonei ali, naquele barracão do CTG, quando te vi. Como tu és linda! Esperei passar na prova da Escola Preparatória de Cadetes do Exército para te pedir em namoro. Não queria que tivesse um namorado sem futuro. Agora tenho futuro, agora posso lhe prometer e cumprir. Essa é a nossa primeira carta, não contei as centenas de “bilhetinhos” que lhe mandei, quase todo dia, depois que aceitaste me namorar. Escreverei todos os dias para ti, meu amor. Receba meu abraço, com carinho. Sempre teu, Rodrigo.” Sentada no sofá, Denise se prostra em pranto. Chora muito. O corpo treme sem controle. A carta na mão. Depois, mais calma, coloca água quente na cuia de chimarrão e sorve o líquido. Seus pensamentos voam. No acampamento, em pé e à frente da barraca, o General aguarda a chegada do comboio vindo de Missões – o restante da sua tropa. Olha para cima e admira a noite de céu estrelado. Para ele não há céu mais lindo do que o céu dos pampas gaúchos. Uma brisa repentina toca o rosto do general. O seu pensamento vai à Denise.

Elias Do Brasil

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